"Tílias..."
- AMBIGUUS PROJECTO

- 29 de abr. de 2019
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...um passo saltitado e está de volta à calçada. um casal de hipotéticos turistas, o típico casal: parados em frente à montra que capta demoradamente o olhar dela e repulsa o dele que, perdido no ambiente nocturno da cidade procura motivos de maior interesse. a fotografia teria estes três elementos: um par de óculos de um vermelho rosado, o cabelo louro de corte médio, um olhar entediado lançado provocadoramente (de modo a atingir quem não o vê) no sentido oposto dos óculos.
continua: passadeira, passeio, passadeira, passeio, passadeira, passeio. o discreto aroma das tílias, que hoje já houvera atravessado o seu dia em memórias, agora real, acorda-a para os sentidos. os seus mais aguçados, a audição e o olfacto. e a partir daí o caminho transforma-se numa sala onde os sons e os detalhes se desenrolam qual passadeira que sabe bem onde a levar: os saltos da senhora de cara redonda ditam o compasso do seu pensamento, outros passos agora céleres interrompem o fluxo constante de sinapses que agora acontece em picos; a porta do carro que denuncia o final do dia para alguém, vozes apoquentadas atrasam o início de uma partida, um cão, um elemento reluzente entre os paralelos da passadeira, a luz verde intermitente, a conversa de quem passou pelo cão sobre outro cão, os pequenos soldadinhos ditadores impostores na ideia de liberdade e abertura que aparenta ter o território que guardam: STONP. as tílias surgiram muito fugazmente, imediatamente abafadas pelos vapores dos escapes citadinos: apenas para lhes dizerem sim, estamos a chegar.
a chave que resiste a permitir a sua entrada no abrigo acorda-a dos sentidos. a espera começa. conforta-a o sono do amanhecer madrugador.
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